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Para Jodi Kantor Obama não seria presidente sem Michelle.

ELIZABETH DAY
DO "GUARDIAN"

A jornalista Jodi Kantor escreveu a biografia "The Obamas: A Mission, a Marriage" (os Obamas: uma missão, um casamento). Em entrevista, fala sobre a introspecção do presidente, a força de Michelle e as manchas que os Bush deixaram na Casa Branca.


Pergunta: Uma das coisas que ficamos sabendo por seu livro é que Michelle Obama possui um par de tênis de grife de US$515.


Jodi Kantor: Eu sei! É surpreendente, de certo modo.


O que infunde vida a qualquer reportagem são detalhes reveladores desse tipo. Até que ponto foi difícil para você conseguir esse tipo de acesso à Casa Branca?

Bem, passei muito tempo na Casa Branca nas áreas públicas, que jornalistas são autorizados a frequentar, mas conversei com pessoas sobre os aposentos particulares, também. Algumas das coisas que fiquei sabendo eram detalhes pequenos, do tipo que aparece em um romance. Por exemplo, o fato de que, quando os Obama se mudaram para a Casa Branca, ainda havia manchas nos tapetes deixadas pelos gatos dos Bush. Sinto que a Casa Branca é quase um personagem neste livro. O que significa morar nesse lugar? É uma residência, mas também é um escritório, um complexo militar e, por falar nisso, um alvo de terroristas.
Annie Leibovitz/Divulgação Casa Branca
Barack Obama ao lado de Michelle e suas filhas, Sasha and Malia, em foto de 2009
Barack Obama ao lado de Michelle e suas filhas, Sasha and Malia, em foto de 2009
Achei interessante o fato de não haver entrada ou saída privadas para a família. Eu estava na Casa Branca alguns meses atrás, em pé na Sala Diplomática, e Sasha (a filha mais jovem dos Obama) apareceu com sua avó. Ela estava chegando da escola, e os funcionários apenas sorriram e fizeram gestos de assentimento com a cabeça, mas eu fiquei um pouco constrangida pelo fato de ela ser obrigada a passar ao lado de uma repórter para chegar em casa. Deve ter sido um pouco incômodo.


No livro, você toma o cuidado de não declarar uma opinião pessoal dos Obama. Mas com quem você preferiria ficar presa em um elevador --Barack ou Michelle?

Acho os Obama incrivelmente envolventes, porque os venho cobrindo há cinco anos. Não se trata tanto de gostar ou não gostar deles quanto de acompanhar o drama da história.


O presidente Obama é tão carismático quanto todo o mundo diz que é?

Em Washington, ele é visto como bastante introvertido. Alguns dias depois de tornar-se presidente ele promoveu uma festa no Superbowl. Ele cumprimentou todas as pessoas educadamente, mas, basicamente, queria assistir à partida como normalmente. Ele me disse mais tarde que se orgulhava de não ser um político que fica em pé, apertando as mãos de todos. Isso não vem agradando a muitos em Washington, porque os presidentes geralmente são pessoas que gostam de jogar conversa fora, e ele não é. Muitas pessoas acham que é Michelle Obama quem tem o carisma.


Um dos capítulos mais interessantes de seu livro trata do desconforto que os Obama enfrentaram quando se deram conta de que a maior parte dos funcionários na Casa Branca é de origem afro-americana. A estadia deles na Casa Branca melhorou as relações raciais nos Estados Unidos?

Ainda é muito cedo para dizer. Quando escrevi o livro, senti que a resposta a essa pergunta ainda está fora de nosso alcance. A questão que eu foquei foi a seguinte: qual é a experiência cotidiana de ser o primeiro presidente e primeira-dama afro-americanos? Por exemplo, quando chegou o convite para Michelle Obama sair na capa da "Vogue", os assessores dela se dividiram por raça. Os assessores afro-americanos queriam muito que ela saísse na capa, porque não muitos afro-americanos vistos como exemplos a seguir o haviam feito. Já os assessores brancos, por outro lado, adotaram postura de muito mais cautela, porque o país passava por enormes dificuldades econômicas e a "Vogue" é uma revista puramente de luxo _o preço nas bancas é algo como US$5. Michelle Obama optou por fazer a capa, e ouviram-se muito poucas críticas. Para mim, esse é um pequeno vislumbre do mosaico real de tudo o que vem acontecendo.


Os Obama já leram o livro?

Não sei. Não tive um retorno.


Você diz nos agradecimentos que se tornou repórter política do "New York Times" ao mesmo tempo em que virou mãe. Alguma vez você deve dificuldade em equilibrar os dois papéis?

Houve um momento na campanha de 2008 em que um assessor de Obama me telefonou para gritar comigo. Era 19h, e eu tinha acabado de chegar em casa. Minha filha tinha uns 2 anos e estava sentada no meu colo. Ela pegou o celular e começou a cantar a canção de Barney: "I love you, you love me. We're as happy as can be" (eu amo você, você me ama. Estamos felizes da vida). Foi surreal e espantoso da parte dele. De certo modo, foi a melhor coisa a ter dito a um assessor de campanha hiperansioso.


Seu livro deixa claro que os Obama têm personalidades diferentes _você diz que ele é mais cerebral, tem dificuldade em conectar-se com o público, enquanto ela é mais calorosa e mais arrojada. Você acha que são as diferenças, mais que as semelhanças, que fazem o casamento deles funcionar?

Sem dúvida. Acho que ele não seria presidente sem Michelle Obama, porque é ela quem o liga às outras pessoas.


Um casamento pode realmente ser uma união entre iguais, quando um dos parceiros é o líder do mundo livre?

A resposta a isso está no livro. Por um lado, Michelle Obama chega à Casa Branca e de fato tem que exercer um papel secundário em um cargo que não está bem definido. Mas eu a observei encontrando maneiras de afirmar seu poder. Esta é a história de uma mulher que, no início, foi colocada num papel muito secundário. O desafio dela é encontrar maneiras de ser poderosa. Na Casa Branca, ela passa de não deter muito poder para a situação de exercer tanta alavancagem interna, pelo fato de ser muito mais popular que ele.
Você enxerga paralelos entre seu próprio casamento e a parceria dos Obama?

Acho que há coisas que descobri relativas aos Obama que penso que realmente são universais no casamento. Em meu trabalho de repórter, achei muito interessante que os períodos de maior dificuldade dos dois Obama na Casa Branca aparentemente quase nunca coincidiam. Quando um estava para baixo, o outro segurava as pontas. Em minha experiência, isso se aplica ao casamento de modo geral. Ocorre alguma delegação emocional do poder.


Você acha que Obama será presidente de um só mandato, como alguns estão dizendo?

Aprendi que os melhores repórteres políticos nunca fazem previsões! Acho que a pergunta que eu tenho a fazer é se Obama possui a capacidade de se reiniciar... de reformular a ideia do porquê ele quer ser presidente, porque a fórmula de 2008 não funciona mais. Ele precisa apresentar uma visão nova, convincente e realista para o país.


Você conheceu Bo, o cão da Casa Branca?

Sim. É muito mais fácil conseguir uma "entrevista" com Bo que com os Obama. Ele se torna uma espécie de substituto, porque anda para lá e para cá pelos corredores da Casa Branca, o tempo todo. Ele é o embaixador perfeito dos Obama, porque você pode esfregar Bo por inteiro e ele adora, enquanto os Obama gostam de se proteger.

Tradução de Clara Allain 

Fonte: Folha de SP

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